A dor que fala

Há sim muita vontade para dizer, para gritar. Alguns desenvolvem comportamentos agressivos para com elas mesmas, se machucam, se ferem. Esse comportamento autodestrutivo também é algo que deve chamar a atenção”

Dizem que uma atitude vale mais do que mil palavras. Nem sempre. Nem sempre mesmo. Infelizmente, existem atitudes que transcendem o respeito ao próximo e a si mesmo, criando dores que podem marcar uma vida.

Segundo a psicoterapeuta Maricelma Bregola, diante a experiência profissional de quase 40 anos, grande parte das pessoas que desenvolvem ideação suicida sofreram abuso sexual por pessoas conhecidas ou familiares. “Isso traz uma outra conotação sobre a vida e sobre a si mesmo. A pessoa carrega a dor da violência e a traição desse familiar. Além disso, quando a pessoa conta à família que foi abusada por um familiar, eles acreditam que seja mentira, visto que a imagem do abusador é diferente para o restante da família. Geralmente ele é simpático, sabe agradar as pessoas. Esse é um complicador muito grande. Infelizmente, é comum a família desacreditar”, explica.

Outras razões

Além do abuso, a profissional afirma que violência verbal, fome, abandono e rejeição são, também, causadores de deturpações psicológicas. “Ninguém quer tirar a própria vida do nada. Penso que a dor é de longa data, coisas que aconteceram na infância ou a adolescência. Essas pessoas não conseguem, sem suporte, enfrentar os percalços da vida. Ou, até mesmo, recriar potencialidades para lidar com a vida. Muitas pessoas ficam fragilizadas”.

Expressão

Diante a vulnerabilidade só existe um caminho: atenção. Para a profissional, quando a pessoa não tem recurso interno para lidar com a dor, ela se percebe em desespero. “A forma de se expressarem muitas vezes não é por palavras, mas pelo adoecimento, como a depressão e quietude/irritabilidade. Há muita vontade para dizer. Alguns desenvolvem comportamentos agressivos para com elas mesmas, se machucam, se ferem. Esse comportamento autodestrutivo também é algo que chama a atenção. É um grito desesperador”.

Ela ressalta que o melhor caminho para se entender é buscar ajuda. Dificilmente a pessoa consegue resolver isso sozinha. É preciso colocar essa dor para fora, para enfrentar a situação, de uma forma mais inteira, seja na reflexão e no perceber as sensações. O desejo a vida só tende a crescer com essa escolha”.

Para encerrar, Maricelma deixa um recado para aqueles que almejam ajudar:

O mais importante é ouvir o outro, sempre. Ouvir é sentir a receptividade. Ouvir é prestar atenção, é entender o todo. É entender a postura, os gestos e o olhar. Isso é importante. É realmente estar junto nesse momento”.  


Todo conteúdo descrito nesse texto foi aprovado pela psicóloga que concedeu a entrevista

Maricelma Bregola é psicoterapeuta – CRP 08/1162

É graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Tem mestrado em Ciências da Educação pela Universidade Internacional e formação em Psicologia Analítica e Psicoterapia com abordagem EMDR.