• De: Luiz
  • Para: Luiz

Caro “Eu” de 2016,

Aqui quem fala é você. É, você não está entendendo errado. É você quem está falando. Sim, você! Você… eu… Nós.

Tô te enviando essa mensagem do futuro pra você entender mais ou menos o que tá acontecendo. Mesmo eu não sendo tão bom com as palavras eu quis conversar com você.

Mas, antes de tudo, deixa eu te pedir algumas coisas: primeiramente, sai dessa sacada. Pular de quinze andares não é tão macio quanto pular naquele colchão que a gente pulava quando era criança, lembra? Quinze andares… Quinze foi a idade que você mudou sua vida e beijou sua primeira boca homossexual. Mudou pra pior. Quem diria que você iria sofrer tanto preconceito, tanta exclusão, ter que viver escondido, sob uma máscara e uma fantasia inteira apenas por demonstrar seu amor?!

De qualquer modo, não é sobre isso que eu vim conversar. Não diretamente. Nesse momento, você tá muito mais impulsivo do que eu estou agora. Aproveita essa impulsividade e escreve uma carta, assim como eu estou escrevendo agora, pra gente em 2000 nos ensinando a como superar um estupro.

De verdade, se você não mandar esse recado, vai ser muito desagradável passar esses 16 anos e, provavelmente, vai chegar um dia que você não vai mais suportar a pressão e vai querer se jogar do décimo quinto andar. Tenta mandar essa mensagem de uma forma bem lúdica, com desenhos, ilustrações ou qualquer coisa do gênero, porque a gente em 2000 tava pra completar 5 anos e não sabia ler direito, aproveita e fala que o eu de 2017 tá ótimo.

Aproveita toda essa impulsividade e também escreve pro eu de 2009, 2010, 2011 e 2012 que o bullying teve um fim e que ficar sem comer por 24 horas seguidas é pior pra nossa saúde do que ouvir que a gente está gordo.

Aproveita toda essa impulsividade e escreve também pra gente em 2004. Fala pra ele continuar indo pra escola de chinelo. Até nos dias de chuva. E não liga pro fato da nossa mãe não ter dinheiro pra comprar um tênis. Na escola tem merenda. Na escola tem uma professora transbordando sabedoria que vai mudar a forma como a gente vê a educação. A educação vai salvar a gente.

Manda um bilhete pra mim em 2003 dizendo que a morte do pai vai ser um divisor de águas gigantesco na nossa vida. Ele não vai mais dizer que vai jogar futebol com a cabeça da mamãe. Sério, não esquece disso, tá?!

Antes que você venha me perguntando porque eu mesmo não mando esses bilhetes, eu digo que é você que precisa fazer isso e não eu. Sabe por quê?

Porque só assim que você vai conseguir alguma coisa pra fazer além de pensar em se jogar do décimo quinto andar.

Só assim você não vai passar por toda essa depressão, por toda essa ansiedade, por todo esse pânico.

Vai! Corre! Pega a caneta! Você já foi corajoso outras vezes antes. Lembra quando você se assumiu pra mãe? Então! Lembra quando você disse “eu te amo” pr’aquele menino? Então.

Agora sai dessa sacada, tá?!

Aliás, eu esqueci de te falar. Aqui em 2017 a gente tá muito bem, obrigado! Mas eu não vou te dar mais spoilers do que vai acontecer no seu futuro, tá? É péssimo quando a gente descobre as coisas antes do horário certo.

Agora faz isso que eu tô pedindo, por favor. Aqui termino minha carta.

Eu te amo.
Eu me amo.
Eu nos amo.

Com amor, eu, você, nós.

P.S.: Eu falei que não ia dar spoiler, mas eu não consigo me segurar. Daqui a dez minutos você vai se assumir pro seu irmão e vai tirar um peso das suas costas, tá?! Kkkkkkkkkk

Luiz