Setembro Amarelo - Cartas Amarelas

Vamos fazer uma pausa na zoeira, porque agora o samba é sério! O relatório de 2014 da OMS (Organização Mundial de Saúde) revela que a cada 40 segundos uma pessoa comete o suicídio; ao todo são 804 mil suicidas no ano em todo o mundo. No Brasil o número tem sido crescente, desde os dados obtidos em 2002 até a presente pesquisa.

Ao analisar estes números e refletir sobre esta situação preocupante, a CW (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), criaram o Setembro Amarelo que entra na sapucaí da vida pra conscientizar a galera sobre a prevenção do suicídio.

Como bom brazucas que somos, fomos a fundo nesta campanha para entender melhor a cabeça destas pessoas que estão passando por enredos parecidos e batemos um papo com psicóloga clínica Ana Cláudia Firmino, para deixar você por dentro deste assunto e, quem sabe, ajudar pessoas (e isto também te inclui) a superar essa barra pesada assim: juntinhos.

Antes de mais nada, precisamos esclarecer que todos os voluntários desta matéria foram pessoas que fizeram a tentativa, mas acabaram por superar suas aflições por meio de ajuda externa ou mesmo auto ajuda, entretanto é fundamental que TODOS busquem ajuda profissional como o da Ana, por exemplo.

Os entrevistados foram coletados com uma simples postagem de Facebook que ficou no ar em torno de uma hora, foi o suficiente para diversas histórias pularem pra dentro do perfil pessoal do brazuca encarregado. Como se trata de um assunto extremamente delicado, selecionamos 5 pessoas pra ouvir o que tinham pra nos contar. Nesta matéria suas identidades serão mantidas em sigilo, mas pra você compreender melhor vamos tratá-los com pseudônimos de personalidades fortes, em homenagem a força de cada um deles.

Elis (em homenagem a Elis Regina), João (para João W. Nery) e Machado (Machado de Assis), seguiram o mesmo exemplo e premeditaram o suicídio através de remédios tarja preta, a primeira se deteve por uma enchente, o segundo desistiu no meio do caminho e forçou o vômito, o terceiro chegou ao hospital a tempo de ser salvo; Tarsila (Tarsila do Amaral) praticou o autoboicote, permitiu se definhar aos poucos, parou de comer, beber e simplesmente esperou a visita da morte; Luiz (Luiz Gonzaga), por sua vez, encarou a vida de cima do décimo quinto andar e, segundos antes de se entregar, resolveu gritar por ajuda e dar mais uma chance a si mesmo.

Ao conversar com Ana Firmino, pudemos perceber diversos artifícios da psicologia que confirmam o que os entrevistaram ressaltaram. Segundo a profissional, o suicídio é “um problema complexo para o qual não existe uma única causa ou uma única razão. Ele resulta de uma complexa interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociais, culturais e ambientais.” Ana nos diz que estudiosos revelam que este ato de tirar a própria vida é como uma forma de fuga de um sofrimento intenso e insuportável. “Ele é acometido de uma imensa angústia que o corrói. Não suportando mais tal sofrimento, passa-se a ver a morte como única saída para o descanso, aliviando essa tensão.”

“Pressão da família, eles sempre estão cobertos de razão e eu estou errado. Muita briga, discussões desnecessárias, cobravam coisas de mim que não conseguia fazer.” (Machado)

“Desde os meus 12 anos, pensava em tirar minha vida para que minha família não visse a “vergonha”.” (João)

“Eu levantava com pensamento de morte e passava o dia me arrastando, ou não levantava da cama e passava o dia inteiro pensando no nada e chega a conclusão de que a morte é o certo.” (Tarsila)

A psicóloga explica ainda que a dor que toma conta da mente do sujeito está carregada de estados emocionais negativos como culpa, vergonha, angústia, solidão, acompanhada de ideais de morte, na intenção de dar fim a essas emoções insuportáveis.

“Às vezes a solidão, às vezes apenas uma vontade de não precisar mais aguentar nenhuma pressão do mundo. Mais por uma sensação de vazio e questionamento existencial. Uma sobrecarga, com tantas coisas. Trabalhar, estudar, ser alguém na vida, se encaixar no padrão de beleza, se envolver com as pessoas. Sorrir e acenar sempre. Tinha acabado de descobrir coisas sobre minha sexualidade e passei a praticar a bulimia por conta de estar insatisfeita com meu corpo.” (Elis)

“É meio vergonhoso dizer que você tá se sentindo assim. Mas no meu caso era muito mau estruturado esses pensamentos. Eles eram mais do tipo: Ah o que aconteceria se eu morresse?” (Luiz)

Desta forma, a especialista nos mostra que a maioria das pessoas que cometeram ou tem comportamento favorável ao suicídio tem algum tipo de transtorno mental diagnosticável como depressão, transtorno de personalidade (anti-social e borderline com traços de impulsividade, agressividade e frequentes alterações do humor), alcoolismo (e/ou abuso de substância), esquizofrenia e transtorno mental orgânico. Entretanto o maior problema disso tudo é o fato de que a maioria não procura um profissional de saúde mental (psicólogos e psiquiatras).

“Estava passando por uma crise existencial do caralho, comecei a ter sintomas depressivos, todo o lance de sexualidade ainda não assumida pra família inteira, fantasmas da infância que tinham retornado… Pavor, por causa das crises de pânico, medo da reação de uns familiares depois da descoberta, sensação de inutilidade. Na real é meio difícil dizer o que se passa na cabeça, porque nessas horas é mais fácil dizer o que não se passa. É um turbilhão de coisas. Uma coisinha vira um cataclisma.” (Luiz)

Ainda segundo Ana, “nunca na história da humanidade vivemos uma sociedade tão desconectada com os laços afetivos”, a psicóloga afirma que a nova geração busca substituir rapidamente esses laços, o que gera um vazio ainda maior, solidão e tédio, aumentando ainda mais o nível de angústia. “Por achar que podem substituir e serem substituídas, as pessoas vivem cada vez mais com um sentimento de ansiedade e incompletude.” Desta forma, o suicida não consegue lidar com este sentimento de falta, o que o leva a voltar-se contra si, ocorrendo uma crise de despersonificação, onde o sujeito não se reconhece mais.

“Vontade de sumir, evaporar, não estar mais na boca das pessoas. Só sabem julgar mal! Eu me indignava e falava tudo. Ninguém me escutava, diziam que era frescura.” (Machado)

“Na verdade foram vários eventos. O suicídio não é na hora, ele vai acumulando. Meu problema é a questão da rejeição. Quando eu terminei minha faculdade, não tinha trabalho, nenhuma perspectiva de vida e não tinha pra onde ir. Eu ajudo os outros, mas não digo de mim. Ninguém quer saber quando o outro não tá bem. Cada um tem seus problemas, por quê vou incomodar os outros com os meus?” (Tarsila)

Desta vez perguntada a respeito do que fazer quando deparar-se com este sentimento, Ana fala sobre a necessidade de dialogar e se abrir com familiares, amigos e principalmente com profissionais de saúde mental. “É importante também que a pessoa seja assistida por um psicólogo em parceria com um psiquiatra que vão ajudá-la a lidar com esses sentimentos negativos e desejo de morte, estruturando e organizando a mente de forma positiva.”

Apesar desta batalha interna, a maioria das pessoas suicidas comunicam seus pensamentos e intenções através de sinais, comentários sobre querer morrer, sentimento de não valer nada, e assim por diante. Estes são os modos de pedir ajuda, que não podem ser ignorados por ninguém. Ana nos listou alguns dos comportamentos:

  • Comportamento retraído, inabilidade para se relacionar com a família e amigos;
  • Doença psiquiátrica;
  • Alcoolismo;
  • Ansiedade ou pânico;
  • Mudança na personalidade, irritabilidade, pessimismo, depressão ou apatia;
  • Mudança no hábito alimentar e de sono;
  • Tentativa de suicídio anterior;
  • Odiar-se, sentimento de culpa, de se sentir sem valor ou com vergonha;
  • Uma perda recente importante – morte, divórcio, separação, etc.;
  • Histórico familiar de suicídio;
  • Desejo súbito de concluir os afazeres pessoais, organizar documentos, escrever um testamento, etc.;
  • Sentimentos de solidão, impotência, desesperança;
  • Cartas de despedida;
  • Doença física;
  • Menção repetida de morte ou suicídio.

Se você detectar estas características ou outras que podem ameaçar a saúde mental de alguém próximo ou até de si mesmos, a psicóloga aconselha conversar, apoiar emocionalmente, dar carinho e respeitar os sentimentos de quem sofre. O próximo passo é buscar ajuda de profissionais da saúde mental, afinal, ainda segundo Ana, a população precisa se conscientizar que as doenças mentais necessitam de mais compreensão e menos julgamento.

“Apesar das dificuldades, da vontade, eu luto a cada dia pra sobreviver! Eu fiz muita coisa na minha vida, de lá pra cá, vivi muita aventura e muita história boa pra contar. Se eu pudesse, evitaria que qualquer pessoa se sinta como me senti. Algumas pessoas realmente não vão ligar, mas sempre tem gente boa pronta pra te ajudar, nunca sinta vergonha de pedir ajuda!” (Elis)

“Por mais que seja difícil acreditar em si mesmo, pense sempre que tudo vai melhorar, tudo passa, é só uma questão de tempo. Às vezes o tempo é cruel! Mas se houver persistência de nossa ou sua parte, você com toda certeza conseguirá provar ao tempo e a todos quem é você e do que é capaz.” (Machado)

“Essa não é a única opção. Você é mais que isso. Seja forte, por mais difícil que seja. Lá fora tem alguém que te ama, que te quer ver todos os dias com esse sorriso no rosto.” (João)

“Por mais que eu esteja passando por isso, não gostaria que outra pessoa tivesse. Espero que consiga ajuda e também passar por esta situação, por fim, tirar a lição de que a vida é mais do que tudo o que a gente possa imaginar.” (Tarsila)

“SEMPRE tem uma saída. SEMPRE vai ter alguém pra te ajudar. Você SEMPRE fará falta para o mundo.” (Luiz)

Não paramos por aqui, os voluntários se dispuseram a escrever cartas para seus “eus” do passado e, também, para quem está passando por algo parecido. Leia e compartilhe para que mais pessoas se conscientizem e consigamos contribuir para um mundo mais feliz:

Você não está sozinho, converse.